IMPRIMA O ARTIGO

PRIMEIRO POEMA DE CASIMIRO A SER PUBLICADO

Se é fato que se perderam para sempre os primeiros versos de Casimiro, não ocorreu o mesmo com os deste soneto em que presta homenagem a João Henrique Freese, o nobre fundador e diretor do Instituto Colegial de Nova Friburgo.

Transcrevemos os parágrafos iniciais da introdução que Casimiro redigiu para o seu livro Primaveras:

“Um dia – além dos Órgãos, na poética Friburgo – isolado dos meus companheiros de estudo, tive saudades da casa paterna e chorei.

Era de tarde; o crepúsculo descia sobre a crista das montanhas e a natureza como que se recolhia para entoar o cântico da noite; as sombras estendiam-se pelo leito dos vales e o silêncio tornava mais solene a voz melancólica do cair das cachoeiras. Era a hora da merenda em nossa casa e pareceu-me ouvir o eco das risadas infantis da minha mana pequena! As lágrimas correram e fiz os primeiros versos da minha vida, que intitulei – Às Ave-Maria: – a saudade havia sido a minha primeira musa.

Era um canto simples e natural como o dos passarinhos, e para possuí-lo hoje eu dera em troca este volume inútil, que nem conserva ao menos o sabor virginal daqueles prelúdios!”

Pois bem. Se temos de admitir, já que o próprio poeta é quem o diz, que se perderam para sempre os primeiros versos por ele feitos na vida, não se pode dizer o mesmo daquela que terá sido a sua primeira produção poética a vir à luz, um soneto que a sorte nos ajudou a descobrir.

Juntamente com trabalhos de três colegas de estudos do Instituto Colegial de Nova Friburgo (sonetos de Francisco Alvares de Azevedo Macedo e Eduardo Stockmeyer, e quadras de João Tavares Guerra), o soneto de Casimiro foi publicado na segunda página do Jornal do Commercio de 28 de novembro de 1852, precedido duma nota introdutória, lembrando que tais poemas tinham sido recitados por aqueles alunos, “Por ocasião do 65º aniversário do Ilmo Sr. João Henrique Freese”.

SONETO

A liberdade eu amo, a pátria, os pais,

Os nobres feitos de glória e de grandeza;

Amo a Deus, criador da natureza;

Detesto os vícios, que nos são fatais.

Linguagem verdadeira, ações morais,

Energia me dão e tal pureza,

Que a lisonja aborreço e a vileza,

Os exemplos seguindo que me dais!

Não é filha da lisonja impura

A sincera oblação que t’ofereço,

Pelos desvelos teus, tua brandura.

Aceita pois os votos qu’endereço

Por tua vida sem mancha, honrada e pura,

A Deus de quem não disso me confesso.

Casimiro José Marques de Abreu.

COMENTÁRIOS

1 – A publicação deve ter partido da direção do colégio, provavelmente com a concordância dos jovens autores. O cultíssimo professor Freese era homem de vários talentos, entre quais, se destacava o de publicitário. Não perdia oportunidade de divulgar na imprensa da Corte as qualidades do colégio que fundara em Nova Friburgo em 1841. Era, para usarmos um termo atual, um brilhante “marqueteiro”.

2 – Apesar dos versos levemente barrocos, a compreensão do soneto só se torna difícil no segundo terceto. Chegamos a pensar que Casimiro já tivesse lido versos de Góngora (Luís de Góngora y Argote, 1561-1627), poeta espanhol cujos versos retorcidos deram origem à classificação de “gongóricos”.

3 – Faz dois anos que descobrimos este soneto, razão pela qual não constou do nosso livro Casimiro de Abreu Obra completa, publicado em 2010 pela Academia Brasileira de Letras em coedição com G. Ermakoff Casa Editorial. Ali, incluímos o soneto “Sete de Setembro”, que Casimiro compôs em 1858 para comemorar a magna data, e que julgávamos então ser o único soneto por ele feito.

Ei-lo, exatamente como aparece e é comentado nas páginas 223 e 455 do livro citado:

SETE DE SETEMBRO.

Hoje faz anos que o herói bendito

Quebrou os ferros desta pátria amada;

– Do lábio augusto, no vibrar da espada,

Soou tremendo do Ipiranga o grito!

Herói colosso, como o herói do Egito,

A fronte altiva de lauréis cercada

Pendeu no exílio pela dor vergada.

– Deu-nos a pátria e foi morrer proscrito!

Ao nobre mártir o brasílio pranto,

E nós – mancebos – dessa glória herdeiros

Lembremos ele no festivo canto.

Saudando o nome de imortais guerreiros

Se o povo é grande neste dia santo

Tem motivos de o ser – são Brasileiros!

COMENTÁRIOS

Dirigindo-se por carta de 2 de setembro de 1858 ao amigo Francisco do Couto Sousa Júnior, de Porto das Caixas, Casimiro lhe diz a certa altura: “Mando-te um soneto para o dia da independência; não presta para nada, mas é o mesmo.”

O poeta se referia ao soneto “Sete de Setembro”, que foi de fato estampado na terceira página do no 445 de O Popular, daquele local, em 8 de setembro de 1858. Saiu sem indicação de data, mas vinha assinado “C. de A.”, em conformidade com o que, na mesma carta, Casimiro anuncia em post scriptum:

“─ Aumentei o meu nome com o de; fica mais aristocrático, o que no entanto não priva da pessoa ficar plebeia, como sempre. C.”

O soneto, o único que se conhece de autoria de Casimiro, só se tornou mais amplamente conhecido 73 anos após a morte do poeta, quando o general-médico e escritor (Antônio) Alves Cerqueira o publicou em 6 de agosto de 1933 no Jornal do Commercio, dentro de uma série de artigos dedicados às letras fluminenses.

Alves Cerqueira o anunciou como inédito, ignorando que o mesmo já fora revelado 75 anos antes em Porto das Caixas, no município fluminense de Itaboraí.

Posteriormente, em junho de 1940, o próprio Alves Cerqueira voltaria a publicá-lo no número 54 da Revista do Clube Militar, numa revisão e ampliação dos artigos que divulgara em 1933 pelas páginas do Jornal do Commercio.

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